SANTOS, Leandro Aleixo dos. os benefícios da prática do karatê no processo de alfabetização. 2012. 59 páginas, Monografia de Conclusão de Curso – FASIPE – Faculdade de Sinop.

RESUMO

O objetivo deste estudo foi aplicar os conteúdos do karatê para vinte e quatro alunos das turmas de alfabetização da Escola Presbiteriana de Alta Floresta e após as práticas analisar os benefícios do karatê neste processo. Para atingir este objetivo, foi realizado um estudo de caso cuja intervenção ocorreu no período de abril a novembro de 2011, onde utilizou-se de jogos e brincadeiras adaptadas ao karatê com momentos tradicionais, implantando-se aos poucos os princípios técnicos e filosófico do karatê. A metodologia foi desenvolver setenta e cinco aulas com duração de cinquenta minutos com alunos de ambos os sexos com idades entre quatro a dez anos. A abordagem dessa pesquisa foi qualitativa. Quanto ao tipo de estudo para essa pesquisa foi utilizada a metodologia descritiva, fundamentada em pesquisa bibliográfica. Observa-se que os resultados da pesquisa foram altamente positivos e aceitos pela escola, assim como a contribuição na formação de futuros vencedores, alicerçados nos princípios éticos e morais absorvidos na filosofia do karatê. Tais resultados poderiam ser definidos como parciais, pois acreditamos que um trabalho para que consiga resultados mais consistentes seria necessário que fosse contínuo e compromissado, ao longo de todo o processo de alfabetização. Portanto, nos sentimos realizados com a aplicação desse estudo, mostrando os benefícios que o karatê traz aos seus praticantes e mudando os preconceitos equivocados que se tem referente a esta arte marcial.

Palavras-chave: Alfabetização, Disciplina e Karatê.

 

INTRODUÇÃO

Desenvolvemos este estudo utilizando o karatê, pois tal luta é sinalizada pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), mas poucas vezes aplicada pelos professores nas aulas de Educação Física, mas que em aulas específicas de lutas, as atividades aqui apresentadas, embora focadas no ensino do karatê, podem compor programas de iniciação esportiva global, por preverem o desenvolvimento integral dos alunos, tendo foco na infância. 

Este estudo aborda os princípios técnicos e filosóficos do karatê, que têm a intenção de resgatar o indivíduo por meio do próprio interesse desenvolvendo um trabalho de inversão, ou seja, combater a violência fazendo com que os alunos tenham interesse em aprender novos valores. Sabemos que a filosofia voltada para o bem e código de honra baseia-se na razão, caráter, esforço e no respeito. Portanto, esta pesquisa visa avaliar a contribuição dos benefícios da prática do karatê no processo de alfabetização de crianças de quatro a dez anos da Escola Presbiteriana de Alta Floresta-MT.

Observa-se que este nível de aprendizagem necessita de atividades físicas e pedagógicas diferenciadas que contribua na formação integral do indivíduo, percebeu-se essa possibilidade através das Lutas. Neste, as atividades desenvolvidas pelo karatê se apresentam como grandes aliadas a esse propósito, visto que, é importante para todas as faixas etárias, principalmente crianças no processo de alfabetização. Sendo que no presente estudo buscou-se as seguintes hipóteses: a prática do karatê como aliada no desenvolvimento pedagógico; a influência da prática do karatê no processo de alfabetização; a influência da prática do karatê no desenvolvimento dos aspectos motores, cognitivos e afetivos das crianças; através da prática do karatê oportunizar às crianças o contato com diferentes culturas corporais, o acesso à língua e às artes japonesas; a influência da prática do karatê na motivação e bem-estar das crianças.

Ainda objetiva-se entender a trajetória histórica do karatê no mundo e no Brasil abordada no primeiro capítulo, isso porque somente ao conhecer a origem e o percurso do mesmo, podemos compreender de forma ampla a sua inserção atual nas diferentes culturas, como a brasileira e os benefícios que advêm de sua prática cotidiana na formação do individuo como um todo.

Já no segundo capítulo, serão apresentados a metodologia e o tipo do estudo utilizado no desenvolvimento da pesquisa, bem como a qualificação do público investigado e a coleta dos dados, sendo coerente com o pressuposto inicial de contribuir no processo de alfabetização.

Por fim, no terceiro capítulo, apresentamos os resultados correspondentes a pesquisa a partir das informações obtidas na análise e interpretação dos dados coletados. E no quarto capítulo as considerações finais sobre o processo de ensino, vivência e aprendizagem do karatê no contexto escolar, na expectativa de construir práticas que não preocupem apenas em ensinar uma modalidade ou preparar crianças para competição, mas que tenham como eixo principal atender essas crianças em suas necessidades e interesses, sem que as tradições envolvidas no karatê sejam desrespeitadas.

 

CAPÍTULO I

REVISÃO DE LITERATURA

1.1 Os primeiros registros das lutas

Precisar o surgimento das lutas não é possível, uma vez que não se trata de uma ação isolada de um homem ou grupo que a propôs, mas, sim de uma construção sociocultural que vem modificando e dando novos significados ao longo do tempo. Breda et al. (2010) aponta que as primeiras formas de lutas surgem como necessidade de defesa pessoal ou de territórios e que, com o tempo, as lutas foram aparecendo em outras manifestações sociais: como exemplo, a utilização das lutas em rituais (em especial entre os indígenas), na preparação de exércitos para guerra (no Oriente e na Grécia Antiga), como um jogo, como exercícios físicos (na Europa) e como forma de defesa-dissimulação (a capoeira, no Brasil).

No Oriente, as lutas aparecem ligadas a outras atividades do cotidiano das pessoas, como a escrita, a culinária, a jardinagem, compondo o modo de vida dos povos há milênios e sendo amplamente difundidas e valorizadas.

Breda et al. (2010) relata que os primeiros registros são datados por volta de cinco mil anos a.C, de uma arte marcial que tem por nome Vajramushti, palavra originada do sânscrito que, na tradução literal, significa “punho real ou punho direito”. De origem indiana, essa arte marcial fazia parte da educação militar da realeza – em especial dos príncipes – e envolvia técnicas de combate, meditação e estudos variados.

Breda et al. (2010) relata ainda que, no século VI, um príncipe indiano chamado Bodhidharma, após se tornar o 28° praticante do budismo, viajou à China a convite do imperador Liang Wu Ti. O imperador era seguidor de uma linhagem ritualístico-salvacionista, que era opositora à de Bodhidharma, pregador da mediação e da busca interior. Tendo em vista o não interesse do imperador chinês por sua filosofia, o príncipe viajou ao reinado de Wei, se hospedando no Templo de Shaolin, onde ensinou aos monges técnicas de defesa pessoal sem uso de armas; essas técnicas foram agregadas aos hábitos dos monges de meditação e estudos, em especial nos estudos sobre filosofia e religião.

Em virtude disso, os monges do Templo de Shaolin se tornaram exímios combatentes. Eles transitaram por diversos mosteiros e em cada região novas técnicas foram surgindo e ganhando novos adeptos que se restringiam a poucos iniciados à prática budista, assim, as técnicas Shaolin foram mantidas em segredo por muitos anos. A posição sentada de meditação foi trocada por posições combativas, e passavam-se horas em treinamento, que consistia na quebra de diversos objetos, como tijolos, madeiras e prática de saltos e movimentos observados em combates entre animais (Breda et al. 2010).  

Bartolo (2009) ressalta  que graças ao monge Bodhidharma, um monge budista do Sul da Índia (um príncipe de Tamil Nadu), o Vajramushti foi introduzido na China e no Japão e depois em outras terras e países. Na China o Vajramushti recebeu o nome de Kung Fu.

Segundo Breda et al. (2010), o Kung Fu, por sua vez, é tido como o estilo que deu origem a maioria das artes marciais conhecidas atualmente, já que imigrantes chineses difundiram as técnicas desenvolvidas no templo Shaolin. O Kung Fu, em outros espaços da China e em outros países, como o Japão, onde novas artes foram surgindo e se desenvolvendo, deu origem a diversas artes marciais, como o Jiu-jitsu e o Karatê, que persistem até os dias de hoje.

 

1.2 A história da origem do karatê em Okinawa

Dizem que as tradicionais artes marciais de Okinawa chamadas “Te” e “Kempo Chinês” foram misturadas e desta fusão foi criado o Karatê. Em 1392, a Dinastia Ming da China enviou para ilha um importante grupo de artesões e artistas – mencionados em antigos documentos como “As 36 famílias”. Entre esses chineses, sem dúvida, encontravam-se indivíduos que tinham conhecimento das técnicas do Kempo Chinês: são os primeiros vestígio do Shaolin Zu Kempo ou o Chuan-Fa importado para Okinawa (Bartolo 2009).

Bartolo (2009) relata ainda que é neste período da história de Okinawa que se situa o elemento capital que iria decidir sobre a orientação das artes marciais já conhecidas ou em curso de elaboração na ilha: a promulgação de um édito que proibia o uso, o porte ou conservação de armas de qualquer natureza. Foram estas recolhidas em praça pública e estocadas em entrepostos severamente guardadas, no intuito de se desencorajar a menor tentativa de revolta. Atribui-se à promulgação desta ordem ao rei Soshin (1477 – 1526). Em vez de, no entanto, se desestimularem, os oprimidos okinawenses viram no fato, um motivo a mais para desenvolverem técnicas de combate apoiadas nas próprias mãos e em elementos de Chuan-Fa (trazidos pelos chineses) ou usar os instrumentos domésticos de que dispunham para serem convertidos em novas armas. Este foi o primeiro passo para a improvisação bélica dos habitantes de Okinawa, que em substituição às espadas começaram a treinar esses métodos de combate com instrumentos agrícolas, tais como nunchaku (que nada mais era do que uma ferramenta para coleta de arroz), cajados, Bujutsu ou dois bastões usados simultaneamente, etc.

Podemos entender que o karatê teve um significativo desenvolvimento em Okinawa baseado em muitos fatores, incluindo o banimento policial de armas seguindo uma política de centralização do rei Soshin (1477 – 1526) e do Clã de Satsuma que invadiu Ryukyu (1609). No início do século XVII, o Japão saía de mais uma terrível guerra civil cujo vencedor foi o Clã dos Satsuma, dirigido pela família Shimazu. O novo Shogun mostra-se hábil em desviar o furor e a ira dos Satsuma derrotados, mas não destruídos, para as ilhas de Ryukyu e ao mesmo tempo estabelecer o controle japonês sobre uma ilha até então submissa à China.

Segundo Bartolo (2009), no dia 05 abril de 1609, os Satsuma se atiram sobre Okinawa que contava então com meio milhão de habitantes com uma frota que desembarcou três mil guerreiros. Okinawa caiu sob o jugo do clã invasor e assim ficou até o ano de 1879, data que a ilha se tornou território japonês, incorporada ao império de Mutsu-Hito.

Logo depois desta ocupação vieram as primeiras ordens de Ichisa Shimazu. A mais importante delas reforçava as disposições antigas: ficava proibida, pela segunda vez, a posse de todo os tipos de armas e qualquer prática de caráter marcial. Os invasores japoneses confiscaram todos os objetos e utensílios de ferro e desativaram as fundições. Desarmados, os cidadãos de Okinawa aperfeiçoaram seu método de combate com os instrumentos agrícolas e desenvolveram a arte da luta de mãos limpas “Te” ou depois denominada Okinawa Te (mão de Okinawa) ou até chamado (Tode mão chinesa). Essa é uma explicação muito aceita e provavelmente seja verdadeira, porém, a enciclopédia de Okinawa observa que não há provas quanto a isso (Bartolo 2009).

Esta falta de prova talvez seja pelo fato que estas técnicas de combate eram feitas em segredo e em horas tardias, sem registro escrito e sim oral e prático. Eram praticadas por pequenos grupos de pessoas (geralmente parentes) e envoltas no mais absoluto segredo, pois a descoberta de alguma atividade marcial certamente seria punida com a morte pelos militares japoneses.

 

É minha observação pessoal que as danças folclóricas de Okinawa utilizam diversos movimentos que são semelhantes aos usados no karatê e o motivo disso, creio, é que os especialista que praticavam a arte marcial às escondidas incorporaram aqueles movimentos nas danças para confundir as autoridades ainda mais. Sem dúvida, qualquer pessoa que observe atentamente as danças folclóricas de Okinawa (e hoje elas se tronaram bastante populares nas grandes cidades) perceberá que elas diferem acentuadamente das danças mais graciosas das outras ilhas japonesas. Os dançadores de Okinawa, de ambos os sexos, usam as mãos e os pés muito mais vigorosamente, e tanto sua entrada na área de dança como sua saída lembram o começo e o fim de qualquer kata do karatê (FUNAKOSHI, 1975, p. 44).

 

Bartolo (2009) aponta que esse sincretismo em conjunto com os aspectos da dispersão geográfica dos vários clãs de praticantes explica a variação e diferenças do “Te” na ilha. Não era possível, visto o aspecto político de dominação nipônica, o contato entre técnicas de praticantes dos mais variados clãs e cidades, o que tornou as aplicações e entendimentos quanto ao combate distintos.

Bartolo (2009) relata que havia três importantes cidades em Okinawa: Shuri, que era a capital, Naha e Tomari. Nelas foram desenvolvidas diferentes técnicas de treinamento e entendimento da arte de combate com as mãos limpas. Estes entendimentos foram depois chamados de estilos. Portanto, o estilo nada mais é que o método de treinamento e entendimento da linhagem e a escola que representam. Estes estilos foram batizados com o nome das cidades, ou seja: Shuri-Te, Naha-Te e Tomari-Te.

Segundo Breda et al. (2010), foi em Okinawa que nasceu Gishin Funakoshi, conhecido como o “pai do karatê”. Aluno de diversos professores de artes marciais na ilha, Funakoshi foi construindo seu estilo de luta. Professor da escola regular, Funakoshi passou a ensinar também sua forma de luta para os alunos. Já em 1902, autoridades visitaram sua escola e ficaram positivamente impressionados com seu trabalho; em 1921, o príncipe Hirohito convidou Funakoshi para fazer uma demonstração de karatê em Tóquio, onde o professor se instalou a partir de então. Em 1924, passou a ministrar aulas de karatê na Universidade de Keio e formou alunos que passaram a difundir sua arte.

 

1.3 Introdução do karatê no Japão

Segundo Bartolo (2009), no início do século XX, o karatê começou a ser introduzido no Japão através de muitos mestres, incluindo o fundador do Shotokan-ryu: Gishin Funakoshi (1871 - 1945), o fundador do Shito-ryu: Kenwa Mabuni (1891 - 1952), e o fundador Uechi-ryu: Kanbun Uechi (1877-1948), e o fundador do Goju-ryu: Chojun Miyagi (1888 - 1953). Também através de Okinawa, o karatê foi ensinado por mestres como Chotoku Kyan (1870 - 1945), Choki Motobu (1870 - 1941) e Choshin Chibana (1885 – 1969), fundador do Shorin-ryu. Dizem que o nome original “Tode” foi trocado pelo nome karatê nesta época.

Bartolo (2009) aponta Funakoshi, denominado pai do Karatê Shotokan, como responsável pela introdução e a popularização do karatê no Japão. Ele foi aluno de Anko Asato e Anko Itoso, que trabalhou muito para introduzir o karatê no Sistema Escolar da Prefeitura de Okinawa em 1902. Ele trouxe os cinco katas chamados Pinan de Itosu para o Japão (assim como fizeram outros alunos Itosu, como Kenwa Mabuni, fundador do estilo Shito-ryu de karatê). Funakoshi trabalhou especificamente para introduzir as modernizações no karatê e expandi-los e divulgá-los em todo Japão. Contudo, tivemos muitos outros karatecas de Okinawa vivendo e ensinando no Japão durante este período de tempo. Na época Funakoshi convivia com grandes mestres de karatê incluindo figuras como Kenwa Mabuni, Chojun Miyagi, Choki Motobu, Toyama, Kanken, Kanbun Uechi e muitos outros.   

 

1.3.1 A trajetória do karatê no Japão

Os estilos de karatê, fora do Japão, tinham linhagens explicitamente claras, mas qualquer associação que se queira fazer, de como o karatê atravessou as fronteiras e sofreu influências neste período citado, é muito complicado. Ainda é agravado pelo espírito nacionalista, o histórico racismo japonês e o típico ressentimento da ocupação por povos na região através de conquistas. Muitos, reconhecidos produtos do karatê, particularmente na Coréia, negaram o nome devido ao ideal nacionalista e das palavras associadas com o Japão, assim como, alguns produtos óbvios do karatê de origem estrangeira foram rejeitados pelos praticantes japoneses, também pela preocupação japonesa da primazia e da pureza.

Nakayama (1977) relata que o Tode foi demonstrado pela primeira vez publicamente fora de Okinawa, em maio de 1922, na primeira Exibição Atlética Nacional, realizada em Tóquio sob o patrocínio do Ministério da Educação. O homem convidado para essa memorável demonstração foi o Mestre Gichin Funakoshi, que na ocasião era presidente da Okinawa Shobu Kai (sociedade para a promoção das artes marciais).

 

Pelo que lembro, foi perto do fim do ano de 1921 que o Ministério da Educação anunciou que seria realizada uma demonstração de artes marciais japonesas antiga na primavera seguinte na Escola Normal Superior para Mulher (então localizada em Ochanomizu, Tóquio). A prefeitura de Okinawa foi convidada a participar da demonstração, e o Departamento de Educação me pediu para apresentar nossa arte local de karatê à capital japonesa. Concordei imediatamente, claro, e comecei a fazer planos. Visto que, na época, o karatê era pouco conhecido fora de Okinawa, e porque as pessoa a quem seria apresentado conheciam pouco ou nada dele, decidi que era necessário algo bastante dinâmico como introdução. De acordo com essa ideia, tirei fotografias das posições, katas e movimentos das mãos e dos pés, e dispus essas fotos em três rolos longos. Levei esses rolos comigo para capital. Toda a demonstração foi um grande sucesso, mas maior sucesso ainda fez minha introdução da arte de Okinawa ao povo se Tóquio (FUNAKOSHI, 1975, p. 81).

 

Nakayama (1977) relata ainda que o Tode passou a ser conhecido como Karatê-Jitsu e, depois, a partir de aproximadamente 1929, Gishin Funakoshi deu o passo revolucionário em defesa veemente de que o nome fosse mudado para Karatê-dô. Assim, o karatê foi transformado, tanto na forma quanto no conteúdo, de técnicas de origem okinawana em nova arte marcial japonesa.

Bartolo (2009) aponta que o Japão tinha ocupado a China nesta época (1937 – 1945), e Funakoshi sabia que nesta época, as artes marciais com nomenclatura chinesa não seriam aceitas, e através da mudança do nome para Karatê-dô, o caminho das mãos vazia, conseguiria, com a introdução do sufixo “DO”, a utilização do karatê como senha para o autoconhecimento e não apenas o estudo dos aspectos das técnicas de luta (jutsu). Como muitas artes marciais no Japão, o karatê fez a transição do “jutsu” para o “DO” no começo do século XX. O “DO” do Karatê-dô separou o karatê do jutsu, assim como ocorreu como Aikido do Aikijutsu e o Judô do Jujutsu. A troca do nome também serviu para familiarizar os japoneses, durante a efervescente época do Nacionalismo Japonês, a tradição contra os estrangeirismos.

Segundo Bartolo (2009), Funakoshi trocou não só o nome da arte marcial e seu  significado, mas também os nomes de muitos katas. Ele queria muito que o karatê fosse aceito pela organização japonesa de Budo “Daí Nippon Botoku Kai”. Essa instituição surgiu em 1895, com a sanção do Imperador Meiji, com o propósito de padronizar, promover e preservar as várias artes  marciais japonesas. Funakoshi também deu nomes japoneses a muitos katas. Estas foram mudanças políticas, obviamente mais difícil que as mudanças no conteúdo das formas. Os nomes mudaram para fazer a arte marcial parecer mais japonesa e menos “estrangeira”. Funakoshi tinha treinado na época, as duas mais populares ramificações do karatê de Okinawa: o Shorin-Ryu e o Shorei-Ryu. No Japão, ele foi influenciado pelo Kendo, incorporando algumas ideias sobre distância e tempo no seu estilo. Ele sempre se referia ao que ele pensava como simplesmente karatê, contudo em 1936, ele construiu o Shotokan Dojo em Tókio, então a sua escola e o estilo que deixou, passou a ser chamado de Shotokan.

Segundo Nakayama (1977), com a publicação de Karatê-dô Kyohan do Mestre Funakoshi em 1935, o Karatê-dô, por assim dizer, tornou-se oficial. Dois anos depois, várias sociedades de karatê de Okinawa filiaram-se à Associação Japonesa de Artes Marciais e uma filial da associação foi fundada em Okinawa.

Bartolo (2009) relata ainda que a modernização e a sistematização do karatê no Japão também incluíram a adoção do ubíquo uniforme branco que consiste no karatê-gi (vestimenta do karatê) e as faixas coloridas. Ambas essas inovações são originadas e popularizadas por Jigoro Kano, o fundador do Judô, um dos mestres que Funakoshi consultava em seu esforço para modernizar o karatê. Entre os melhores alunos de Funakoshi, Otsuka Hiriki não concorda com a luta Jyu Kumitê como forma esportiva e se desliga de seu mestre fundando o estilo Wado-Ryu. Chega ao Japão Myagui Chogun e funda o estilo Goju-Ryu, em 1928, e tem como melhor aluno Yamaguchi Gogen. O professor Mabuni Kenwa, aluno de Myagui Chogun, junta os estilos Shuri-Te e Naha-Te e funda o estilo Shito-Ryu. Matsutatsu Oyama se desliga do Goju-Ryu e funda o Kiokushinkai, ou karatê de Contato, e passa a difundir o karatê pelo mundo lutando contra homens e touros no ocidente.

Nakayama (1977) relata que o treinamento de métodos foi outra questão à qual Funakoshi dispensou sua desvelada atenção. Enquanto antes existia somente o kata, ele dividiu a prática em três tipos: fundamentos, kata e kumitê.

Nakayama (1977) relata ainda que os jovens estudantes se reuniam em volta de Funakoshi e se dedicavam a prática do kumitê com grande entusiasmo. O kumitê evoluiu do kumitê preordenado para Jiyu Ippon kumitê prático e, finalmente, para o Jiyu kumitê, onde, por assim dizer, nem o agarramento é proibido. O kata tinha se tornado extremamente aprimorado em Okinawa. Agora, a pesquisa do kumitê tinha desenvolvido consideravelmente e podemos dizer que um novo aspecto do karatê havia surgido. Podemos ir além e afirmar que o karatê atualmente alcançou o ponto mais alto da perfeição.

Segundo Nakayama (1977), a primeira Idade de Ouro do karatê, como tem sido chamada, ocorreu por volta de 1940, quando quase todas as importantes universidades do Japão tinham seus clubes de karatê. Nos primeiros anos do pós-guerra, ele sofreu um declínio, mas hoje, graças ao entusiasmo dos que defendem o Karatê-dô, ele é praticado mais amplamente do que nunca, difundindo-se para muitos outros países no mundo inteiro, criando uma segunda Idade de Ouro.

 

1.4 Fatos históricos que influenciaram o desenvolvimento do karatê

Este foi um período de 1874 a 1945, especialmente turbulento na história da ilha de Okinawa e Japão e temos que observar alguns fatos históricos importantes que influenciaram no desenvolvimento do karatê.

Anexação Oficial do grupo de ilha de Okinawa: realizado em 1879, segundo Bartolo (2009), feito pelo Governo de Meiji. Desde 1609, os reis de Okinawa pagavam tributos para China e o Japão, então, o Imperador Meiji anexou Okinawa impondo compulsoriamente as crianças okinawenses, a língua, a cultura e identidade japonesa na ilha, proibindo o uso da língua nativa.

Bartolo (2009) aponta também como fatos históricos importantes: 1ª Guerra Chino-Japonesa: (1894-1895), entre a Dinastia Ming da China e o Império da Era Meiji na Disputa sobre o controle da Coréia. A vitória foi japonesa e um dos principais resultados desta guerra foi a perda da dominância regional chinesa na Ásia para o Japão. E a Guerra Russo-Japonesa: (1904 -1905) onde novamente o palco era a Coréia e ocorreu mais uma vitória japonesa na Manchúria.

Bartolo (2009) relata ainda o surgimento do Expansionismo Japonês: (1905 – 1945), período de ideologia nacionalista japonesa. É uma ideologia muito complexa para uma curta explanação, mas muito importante para o entendimento do karatê como filosofia, envolvendo doutrinas radicais de direita, similares ao Fascismo. É uma combinação única e singular de elementos filosóficos, nacionalistas, culturais e religiosos que teve um crescimento até a eclosão da II Guerra Mundial. Tem como elementos tradicionais o Bushido, também conhecido como o Código dos Samurais, as regras do Xintoísmo, o culto a Hachiman, a cultura Kamikaze e o Shiragiku, símbolo imperial, chamado assim em alusão ao Trono do Crisântemo, o tradicional trono dos imperadores japoneses. Não podemos deixar de ressaltar a importância da influência  da educação e das políticas nacionalista japonesas.

               

1.5 Globalização do karatê como arte marcial e esporte.

Nakayama (1977) relata que após a guerra eram frequentes as solicitações das forças Aliadas estacionadas no Japão para assistir as exibições das artes marciais. Peritos em Judô, Kendô e Karatê-dô formaram grupos que visitavam as bases militares duas ou três vezes por semana com a finalidade de demonstrar suas respectivas artes. Era grande o interesse dos membros das forças armadas pelo karatê, uma arte que estavam vendo pela primeira vez em suas vidas.

Segundo Nakayama (1977), em 1952, o Comando Aéreo Estratégico da Força Aérea dos Estados Unidos enviou um grupo de oficiais e de oficiais subalternos ao Japão para estudar Judô, Aikidô e Karatê-dô. O objetivo era treinar instrutores de educação física e, durante os três meses em que estiveram no Japão, eles seguiram um programa rígido, estudando e praticando intensivamente. Esse programa de treinamento foi altamente considerado e começaram a vir grupos de outros países, além dos Estados Unidos. Vários países também solicitaram que fossem enviados instrutores de karatê para que se pudesse treinar um maior número de instrutores. Essa, sem dúvida, foi uma influência que ajudou a tornar popular o karatê em todo mundo.

Segundo Bartolo (2009), era natural que, por todos os fatos ocorridos o Karatê-dô ganhasse o mundo. Porém, em face da enorme variedade de escola e estilos, essa globalização seria muito complexa. O Karatê-dô neste plano técnico foi introduzido em vários países, a partir da década de 50, principalmente pelos mestres da Japan Karatê Association. Eles estavam preocupados em difundir o Karatê-dô. Em cada país surgia a vontade de organizar as entidades nacionais que representariam a arte marcial, já visando também o Karatê-dô como esporte.

Bartolo (2009) relata que na França, Henry Plee era um dos mais importantes divulgadores do Karatê-dô, e tinha um aluno chamado Jacques Delcourt, que era jurista e 4º Dan de Karatê-dô. Em 1961, Delcourt foi eleito para ser presidente da Federação Francesa de Karatê, então ligada à Federação de Judô. Após organizar a Federação Francesa, ele convidou em 1963, alguns países europeus para participar de um congresso. Nesses anos seguintes, os europeus trabalhavam para desenvolver a sua organização, a European Karatê Federation (E. K.F) e a metodologia que daria suporte para a competição. Em 1970, Delcourt entendia que o Karatê-dô tinha de ser trabalhado em todo o mundo e então, anuncia que Paris se candidata ao I Campeonato Mundial em 14 de novembro visando montar uma federação mundial, nos mesmos moldes já conseguidos na Europa. Foi então que o presidente da Federação Japonesa, Ryoichi Sasakawa foi se encontrar com Delcourt em Paris para lhe dizer que era impossível montar uma organização mundial sem a participação japonesa e propôs uma junção entre a FAKJO e a EKF. Então um acordo foi feito entre os dois líderes, em 16 de junho de 1970, que gerou o surgimento da World Union Karatê Federation (WUKO). Sasakawa retorna a Paris, em 09 de agosto de 1970, acompanhado dos mestres Eriguchi, Nakayama e Kagawa e organiza uma conferência internacional no Hotel Intercontinental, onde toda organização europeia e de outras parte do mundo foram convidadas. Após escutar vários pontos de vista, Sasakawa tenta fazer um acordo com todos os presentes e no final da conferência informa que seu acordo com Delcourt é definitivo. Ficou decidido que o I Campeonato Mundial seria em Tóquio, em 10 de outubro de 1970.

Segundo Bartolo (2009), um grande racha estava por vir na década de 70. No Japão usavam-se as regras da Nihon Karatê Kiokay (NKK) que se tornou a Japan Karatê Association (JKA), mas com o passar dos anos a Federação Japonesa de Karatê tinha ficado forte e adotou a regra da WUKO. Depois da morte de Sensei Nakayama na JKA surgiram as primeiras divergências e alguns professores saíram da organização e fundaram a suas próprias entidades. Surgia o Karatê-dô Tradicional, a International Shotokan Karatê Federation (ISKF), entre outras de outros estilos que se estruturam mundialmente.

Bartolo (2009) relata que o karatê encantava o mundo e o filme Karatê Kid é lançado no cinema em 1984, tendo um importante papel na divulgação do Karatê-dô. A história que tem uma filosofia de Karatê-dô fala que após enfrentar problemas na nova cidade onde vive, um jovem passa a aprender os ensinamentos do karatê com um vizinho japonês. Dirigido por John G. Availdsen (diretor de Rocky) e com Ralph Macchio, Pat Morita e Elisabeth Shue. Recebeu uma indicação ao Oscar e ao Globo de Ouro. Feito pela Columbia Pictures, o filme tem boa bilheteria e vira uma ferramenta de marketing em benefício do Karatê-dô.

Bartolo (2009) relata ainda que esforços têm sido feitos para incluir o karatê nos Jogos Olímpicos – o maior símbolo das realizações do homem no campo desportivo. No dia 06 de junho de 1985, a WUKO foi oficialmente reconhecida pelo Comitê Olímpico Internacional (COI). Em 1993, na Argélia, para adaptar-se às regras do Comitê Olímpico Internacional, a Federation Mondiale de Karatê (FMK), também conhecida como World Karatê Federation (WKF), observou a antiga WUKO, fato este que trouxe um desenvolvimento direcionado à promoção do karatê mundial. No dia 18 de março de 1999, o COI em sua 109ª sessão (Seul), um certificado do COI, confirma em certificado o reconhecimento em caráter definitivo da WKF, de acordo com o artigo 29 da Carta Olímpica, como a Federação mundial dirigente da modalidade karatê como esporte.          

 

1.6 A chegada do karatê ao Brasil

O Karatê-dô chegou ao Brasil com a vinda dos primeiros imigrantes japoneses em 1908, no navio Kasato Maru, que chegou ao porto de Santos-SP. Neste ano de 2012, estão sendo comemorados os 104 anos de imigração japonesa no Brasil.

Segundo Bartolo (2009), o Karatê-dô era praticado pela colônia japonesa e por muitos poucos brasileiros, que tinham aceso à colônia e se interessavam pela modalidade. Como a chegada foi em Santos, as colônias japonesas se instalaram no litoral e no interior de São Paulo, onde se dedicaram à agricultura. Tamanha é a importância da imigração que na cidade de Santos há um “Monumento aos Imigrantes Japoneses”, inaugurado em 18 de junho de 1998, como parte das comemorações dos 90 anos da imigração japonesa no Brasil. A obra é uma justa homenagem aos pioneiros que desembarcaram do lendário Kasato Maru, em 1908.

Bartolo (2009) relata que já na década de 50, através da colônia japonesa, alguns mestres de Karatê-dô começaram a se organizar para realmente dar aula e abrir academias, principalmente na capital, São Paulo. O karatê logo começou a ganhar diversos adeptos.

Bartolo (2009) relata ainda que em 1955, Sensei Mitsusuki Harada, mestre do estilo Shotokan abre a primeira academia de karatê em São Paulo. Na sequência, em 1959, Sensei Akamine, mestre do estilo Goju-ryu já iniciava as aulas no clube Santos de Vila Prudente, para no ano seguinte fundar a Associação Brasileira de Karatê, a famosa ABK, na rua Tabatinguera no centro de São Paulo. No mesmo ano, Sensei Juichi Sagara, mestre do estilo Shotokan treinava em conjunto com Yasutaka Tanaka, Tetsuma Higashiro e Sadamu Uriu. Em 1961, levado pelo Dr. Ângelo Decanio, chegava ao Ginásio Acrópole em Salvador, Bahia, um japonês franzino e com apenas dezenove anos. Tratava-se de Eisuke Oishi, que, após entrar em entendimentos com o Sr. Walter Andrade, diretor do ginásio, começou a ministrar aulas de karatê para um grupo de dez pessoas. O jovem Oishi contava entre seus alunos com Denílson Caribé, que desde logo se destacou e veio a ser um ícone do karatê baiano. Em 1962, o Sensei Shinazato, mestre do estilo Shorin-ryu, fundou em Santos-SP a Academia Santista de Karatê-dô.

Segundo Bartolo (2009), na década de 60 tínhamos nitidamente a organização das academias voltada para o ensino das artes marciais. Era o desenvolvimento inicial, que começava pouco a pouco com os imigrantes japoneses e começaria a se espalhar pelo Brasil. O Karatê-dô migrava para os estados brasileiros e começava-se a pensar em competições.

 

1.6.1 As primeiras competições de karatê no Brasil

Bartolo (2009) relata que em 1969 foi disputado o I Campeonato Brasileiro de Karatê ainda vinculado à Confederação Brasileira de Pugilismo, realizado no Ginásio de Esportes do Botafogo no Rio de Janeiro. Esta foi a primeira competição oficial de karatê no Brasil, realizada nos dias 02 e 03 de dezembro de 1969 e teve a participação dos seguintes estados: São Paulo. Distrito Federal, Bahia e Rio de Janeiro. Os resultados desta competição trazem os primeiros campeões e precursores do Karatê-dô esportivo.

Bartolo (2009) relata ainda que no dia 23 de outubro de 1970, foi disputado o II Campeonato Brasileiro de Karatê, no Distrito Federal, com a participação das federações brasiliense, baiana, paulista, mineira, goiana, cearense, carioca e fluminense. E no dia 05 de novembro de 1971 foi realizado o III Campeonato Brasileiro de Karatê no Rio de Janeiro com a participação dos estados da Bahia, Minas Gerais, Ceará, Goiás, Rio Grande do Sul e Brasília. Assim tornando tradicionais as realizações dos Campeonatos Brasileiro de Karatê.

Segundo Bartolo (2009), a partir de 1972 as equipe brasileiras de karatê de competição esportiva começaram a ganhar destaque internacional. O atleta Luís Watanabe se sagra campeão no Campeonato Mundial de Paris pela WUKO. No ano seguinte ele foi vice-campeão, no I Campeonato Pan-Americano, realizado no Rio de Janeiro.

Bartolo (2009) afirma que em outubro 1972, a Federação Baiana de Karatê foi a primeira a ser fundada no país. O grande idealizador da Federação Baiana de Karatê foi o Prof. Denilson Caribé de Castro o qual, tendo ficado com a herança técnica do Eisuke Oishi, realizou seu primeiro grande sonho que era implantar uma academia modelo. Assim, fundou a Associação de Karatê da Bahia – ASKABA, que se tornou uma das melhores academias do Brasil e comparada às grandes do Japão, tendo sido elogiada pelos Mestres que por ela passaram. Não satisfeito, pretendeu regularizar e regulamentar o karatê no Estado da Bahia, o seu segundo sonho. Assim, juntamente com outros grandes companheiros de luta e com a assessoria do SR. Fauzi Abdala João, fundou, em 23 de outubro de 1972, a Federação Baiana de Karatê – FBK, que se tornou uma das federações mais respeitadas na constelação da Confederação Brasileira de Pugilismo. Posteriormente, a FBK foi uma das fundadoras da Confederação Brasileira de Karatê e referência na constituição das demais entidades estaduais no Brasil.

Bartolo (2009) afirma ainda que nos anos seguintes o Brasil manteve em destaque no Campeonato Pan-Americano. E em 1977, terminou entre as oito melhores equipes no Mundial de Tóquio. Neste mesmo ano, Sensei Masatoshi Nakayama faz uma visita ao Brasil e faz uma verdadeira incursão no Karatê-dô da Bahia, junto a mestres Machida e Caribé.

Segundo Bartolo (2009) em 1981, o Brasil foi vice-campeão Sul-Americano em Buenos Aires, Argentina em 1983 conquistou o quarto lugar no Mundial realizado no Egito. Era uma colocação inédita para o Brasil. E no ano de 1984 o Brasil se filia à antiga WUKO (World Union Karatê Organization), hoje WKF (World Karatê Federation). A partir daí, grandes mudanças aconteceram no Karatê-dô brasileiro. A partir de 1970 já existia o movimento e a fundação da WUKO, mas só em 1984 o Brasil se filou a entidade mundial, 14 anos de desinformação e espera. No ano seguinte, em 1985, o Brasil se apresenta com excelência no Pan-americano do Rio, conquistando um ótimo resultado.

Bartolo (2009) relata que até 1985 não era permitido que mulheres participassem de shiai kumitê (luta). Elas queriam lutar e foi feita uma reportagem no jornal Ação Esportiva reivindicando o direito do sexo feminino lutar também. Elas reclamaram e conseguiram e 07 anos depois Maria Cecília de Almeida sagrou-se campeã Mundial em Fukuoka – Japão e depois foi Campeã Mundial de Kumitê em 98, no Rio de Janeiro.

Bartolo (2009) relata ainda que em 1986, foi realizado o XIV Campeonato Brasileiro de Karatê, agora disputado de acordo com as regras da WUKO (World Union Karatê Organization), com arbitragem e regras diferentes. Também no ano de 1986, tivemos no Estado de São Paulo, a inclusão do Karatê-dô nos Jogos Abertos do Interior, que possui o título de maior competição da América Latina. O karatê passava a ter um status competitivo adequado à sua grandeza.    

 

1.6.2 A organização do karatê no Brasil

Segundo Bartolo (2009), em 11 de setembro de 1987 foi fundada a Confederação Brasileira de Karatê. No Brasil então, a entidade nacional de administração, da modalidade esportiva do Karatê-dô, se torna a Confederação Brasileira de Karatê – CBK (representante de 26 federações estaduais), que está filiada à WKF e vinculada ao Comitê Olímpico Brasileiro – COB e tem certificado do COI, além de reconhecida através do MEC como entidade de direção nacional da modalidade, com competência na área do desporto de sua própria denominação.

Segundo a publicação no site https://www.karateamk.com/p/cronologia.html (acessado no dia 18/02/12), quando o COI, através dos comitês nacionais (no Brasil, o COB), exigiu a filiação única de seus países membros à WUKO, o então Diretor do Departamento de Karatê da CBP, Sensei Yasutaka Tanaka, contrariado com a medida do COB, decide fundar outra federação de karatê, o que era proibido com a legislação da época. Este processo estendeu-se para os tribunais, onde o renomado jurista Dr. Paulo Perry conseguiu "provar" a "diferença" entre os dois "karatês" através de uma incrível manobra, na qual ele afirmou que o Karate da WUKO era uma modalidade esportiva, enquanto que o karatê da IAKF era outra, traçando um paralelo entre o futebol de campo e o futebol de salão. Com isto, em 25/11/1986 nascia a Federação de Karatê-Do Tradicional do Estado do Rio de Janeiro em oposição a já existente FKERJ, previamente fundada em 1975.

Utilizando-se desta jurisprudência, a partir de 1988 surgiram outras entidades nacionais na modalidade do Karatê-Do.

Bartolo (2009) relata que, em 1988, foi fundada a Confederação Brasileira de Karatê-dô Tradicional e Senseis Tanaka, Inoki, Sasaki, Machida, Osvaldo e Luiz Watanabe trabalharam muito para o desenvolvimento deste Karatê-dô. E também em 1988, no interior do estado de São Paulo, o prof. Takashi Shimo fundou a UKI (União de Karatê Interestilos), que começou com um movimento estadual e atingiu âmbito nacional, e que após a morte prematura do Prof. Takashi Shimo em 1993, acabou terminando. Neste mesmo ano, Osvaldo Messias de Oliveira, segue o mesmo caminho de Takashi Shimo, e aproveitando a lacuna deixada pelo professor, funda FPKI – Federação Paulista de Karatê Interestilos e, em março de 1994, funda a CKIB – Confederação de Karatê Interestilos do Brasil. Sendo que no ano de 1996, muda o nome da organização e funda a CBKI – Confederação Brasileira de Karatê Interestilos.

Segundo Bartolo (2009), com o advento da Lei 8.672/93 (Lei Zico) no Brasil em 06 de julho de 1993 atualizada pela Lei  2.574/98 de 29 de abril de 1998 (Lei Pelé), qualquer grupo de pessoas poderia abrir federações e confederações, o que gerou um sem número de agrupamentos de karatecas. Todo fato tem que ser avaliado por dois lados. O primeiro aspecto é positivo e é  a liberdade dada aos desportista de seguirem seu próprio caminho e se organizarem em grupos por afinidade. O segundo aspecto é negativo e é o fator dessa mesma liberdade conturbar a credibilidade  da nossa modalidade na parte esportiva e confundir ainda mais o povo que busca informações sobre o Karatê-dô.

 

1.7 Princípios filosóficos do karatê

Bartolo (2010) relata que no período Bujitsu, as artes marciais representam o período empírico, enquanto no segundo período, o Bugei, elas representam apenas o produto de uma nação constituída por feudos em guerra constante. Paralelamente a isso, a ação de inúmeros assaltantes motivava os camponeses a procurar meios naturais de defesa. De qualquer forma, esses dois tipos de conflitos, no desenrolar dos quais a mentalidade do povo foi sendo modelada, trouxeram como resultado final o refinamento e a sofisticação de combates corpo a corpo.

Bartolo (2010) relata ainda que no terceiro período de sua história, o Budô, as artes marciais japonesas adquirem um caráter predominantemente místico, religioso e quase sobrenatural. A filosofia do misticismo “DÔ” (caminho ou via) é que impregnou e deu requinte ao karatê. O “DÔ” é o aparte que o Zen-budismo oferece a todo praticante de Karatê-dô, juntamente com o “Zazen”, que é a meditação Zen-dudista sentada. É enfim, a filosofia que leva o homem a reencontrar sua própria essência percorrendo o caminho conhecido como “BUDÔ”, ou seja, o caminho da iluminação. A essência do Karatê-dô está impressa no código de honra que conhecemos hoje como Bushidô, que influenciou muitas gerações de mestres e discípulos, tornando-se o pilar dos ensinamentos dos nobres guerreiros japoneses.

Segundo Nakayama (1977, 1978, 1979, 1981, 1987, 1995), ser capaz de infligir danos devastadores no adversário com um soco ou com um único chute tem sido, de fato, o objetivo dessa antiga arte marcial de origem okinawana. Mas mesmo os praticantes de antigamente colocavam maior ênfase no aspecto espiritual da arte do que nas técnicas. Treinar significa treinar o corpo e o espírito e, acima de tudo, a pessoa deve tratar o adversário com cortesia e a devida etiqueta. Não basta lutar com toda a força pessoal; o verdadeiro objetivo do Karatê-dô é lutar em nome da justiça.

Nakayama (1977, 1978, 1979, 1981, 1987, 1995) relata ainda que, decidir quem é o vencedor e quem é o vencido não é seu objetivo principal. O Karatê-dô é uma arte marcial para o desenvolvimento do caráter através do treinamento, para que o karateca possa superar quaisquer obstáculos, palpáveis ou não.

Atribui-se a Funakoshi a criação e a utilização do Dojo Kun no Karatê Shotokan. De modo instituir o Dojo Kun mostra a influência dos ensinamentos do Mestre Azato na vida de Funakoshi. Tais ensinamentos são atualmente os cinco lemas do karatê.

 

”Lema do Karatê-dô”

1.Sempre - esforçar-se para formação do caráter;

Reparem a nítida preocupação de aliar a técnica a homens íntegros e de responsabilidades, pois se o Karatê-dô for utilizado por pessoas com desvios de conduta pode ser extremamente perigoso.

2.Sempre - fidelidade para com o verdadeiro caminho da razão;

Sendo íntegro, tendo moral elevada e estando ao lado da razão, você trará benefícios para vida em sociedade.

3.Sempre - criar o intuito de esforço;

É o que sempre falo para meus alunos: não precisa ninguém mandar fazer, você deve ter a energia pró-ativa e não a negativa, e simplesmente fazer. O esforço deve ser próprio para trazer benefícios evolutivos à pessoa. Isso deve ser desenvolvido, primeiro, por incentivo dos pais e professores e depois por si próprio.

4.Sempre - respeitar acima de tudo;

O respeito aos pais, aos professores e mentores. Às pessoas mais velhas, aos adversários e a natureza das coisas é a tônica desta máxima. Sem respeito não se tem ordem. O aprendizado disto nos faz diferentes como seres racionais.

5.Sempre - conter o espírito de agressão;

O Karatê-dô surgiu como um meio de autodefesa com o objetivo de sobreviver. “Funakoshi achava tão importante este fundamento, que alunos colocaram na lápide do seu túmulo: Não existe o primeiro golpe no Karatê-dô”. Todos os katas começam com defesa. (BARTOLO, 2009, p. 93 e 94).

 

Com o crescente interesse estrangeiro pelo karatê na década de 50, Funakoshi, mesmo com seus 80 e poucos anos, trabalhava arduamente na divulgação do karatê shotokan. Faleceu em 26 de abril de 1957 e deixou um legado com “Vinte Princípios do Karatê”. Esses 20 princípios visam o desenvolvimento espiritual e mental dos alunos de karatê. É a preocupação com os aspectos espirituais, que transforma o karatê, de mera arte marcial, num caminho a ser percorrido e vivenciado.

 

“Vinte Princípios do Mestre Funakoshi”

1.     Não se esqueça que o Karatê-dô começa e termina com saudação;

A saudação por várias vezes, e principalmente neste caso, é considerada como respeito, mas na realidade significa muito mais que isso. O respeito se deve ter pelo ensinamento, companheirismo e pela vida. Respeito é uma das qualidades que distinguem o ser humano do animal irracional. Mas é dito que sem a saudação não existe ordem. Métodos de combate que não desenvolvem o hábito da saudação não são artes marciais e sim, competições violentas e agressivas. A verdadeira saudação é a expressão demonstrada por um coração respeitoso e uma alma elevada.

2.     Não existe o primeiro golpe no Karatê-dô;

No Karatê-dô, as mãos e os pés são considerados tão mortais como uma lâmina de uma espada. Por isso, o principio de que não existe o primeiro golpe no Karatê-dô é uma extensão do princípio básico do samurai de que se deve evitar ao máximo o uso imprudente das armas. Isso demonstra a absoluta necessidade de desenvolver a paciência do ataque e sim o caminho da defesa pessoal. Essa é a máxima mais conhecida de Funakoshi e está gravada em seu túmulo.

3.     O Karatê-dô fica sempre ao lado da Justiça;

Quando a pessoa é honesta e verdadeira consigo mesma, todos são beneficiados com isso. Justiça é o que é certo. Essa sempre foi uma grande preocupação do Mestre Funakoshi que cita em um dos lemas do Dojô Kun a fidelidade para com o verdadeiro caminho da razão. Fazer que é certo e verdadeiro requer força e capacidade de discernimento. O karateca deve estar ao lado da justiça em todos os momentos.

4.     Primeiro conheça a si mesmo, depois conheça os outros;

Este é o legado do aprendizado do mestre Asato para Funakoshi. Asato era admirado por Funakoshi por conhecer pelo nome, onde moravam e como moravam, suas fraquezas e seus pontos fortes. Ele dizia que conhecendo o adversário e a si mesmo a vitória estaria muito perto.

5.     A mente é mais poderosa que a técnica;

As pessoas dão prioridade para a execução de técnicas e se esforçam para serem as melhores no aspecto técnico. Depois de se tornarem as melhores, a tendência é se tornarem vaidosos, cometendo graves erros e pode trazer prejuízo à sociedade. Na prática do Karatê-dô devemos voltar sempre à origem, que é o aprimoramento do espírito. É como dizem: a técnica não faz a pessoa; é a pessoa que faz a técnica.

6.     A mente deve estar livre;

Você deve estar com a mente sempre aberta, livre e apta a receber novos estímulos. Uma mente fixa em determinada coisa deixa de responder com habilidade e exatidão aos insumos recebidos. Na verdade, devemos aprender através do desprendimento. A vida a cada dia que passa está cada vez mais complexa e complicada. A sociedade conforme a época produz situações que geram os mais variados distúrbios mentais. Na época do psicanalista Sigmund Freud tínhamos histeria, nos dia de hoje temos síndrome do pânico, e assim por diante. Com a prática correta do Karatê-dô procuramos acalmar o estado do corpo e do espírito, eliminando as armadilhas que a vida em sociedade nos proporciona.

7.     O infortúnio resulta de um descuido;

A maioria dos acidentes acontece por desatenção, negligência, preguiça e descuido. O karateca deve sempre estar em estado de alerta. Não é à toa que o lema dos escoteiros é “Sempre alerta”. A sobrevivência sem a cautela é impossível. Vejam os animais se alimentando e sempre olhando para ver se seu predador está por perto. Funakoshi sempre agia com prudência ao se aproximar de esquinas, ao abrir portas e mesmo quando comia com os pauzinhos não deixava seu nível de atenção diminuir.

8.     O Karatê-dô vai além do Dojô;

O objetivo do Karatê-dô é aprimorar e desenvolver tanto a mente quanto o corpo. O cultivo mental e espiritual iniciado durante a prática no Dojô não deve cessar depois que o treino termina. Ao contrário, deve continuar ao longo da rotina diária. Dentro ou fora do Dojô, os praticantes de Karatê-dô devem visar sempre desenvolver e treinar tanto a mente quanto o corpo. O Karatê-dô deve ser usado no dia a dia e vice-versa. Encare o mundo inteiro como um verdadeiro Dojô vinte e quatro horas por dia.

9.     O Karatê-dô é para toda a vida;

Se você seguir o ensinamento anterior, com certeza você compreenderá e o entenderá. Assim como na vida aprendemos com as várias fases pela qual passamos, no Karatê-dô isto não seria diferente. Conforme a idade avança o corpo declina e mente e o espírito cresce. Em cada fase da vida o Karatê-dô surge como um aprendizado novo. O Karatê-dô que é praticado aos 20 anos é diferente do praticado aos 40, 60 e 80 anos. O verdadeiro caminho do treinamento é uma estrada ilimitada e sem fim. É através do esforço contínuo que será possível a autocorreção de forma que haverá uma grande evolução no ser humano. Conta-se que em seu leito de morte, Funakoshi repassava mentalmente os katas tentando melhorá-los.

10. Aplique o Karatê-dô em todas as coisas, é nisso que consiste a sua beleza;

Quando os karatecas enfrentam uma dificuldade, de modo que suas vidas estejam em jogo, eles irão perceber que têm de acreditar em seus treinos e habilidades. Quando isto acontece poderão perceber as maravilhas contidas no processo de polir o corpo e mente através do caminho do Karatê. Nessa hora que irão conhecer a beleza intensa e exclusiva desse caminho.

11. O Karatê-dô é que nem água quente, se não receber calor ela esfria;

Para manter o calor é importante o fogo constante. É através do esforço que surgirá o fruto e o prazer pela prática, e o verdadeiro valor do ser humano irá aflorar. É melhor treinar pouco, mas constantemente do que treinar apenas de vez em quando. Apenas com o treinamento e estudo contínuo, você será capaz de perceber, na mente e no corpo, os benefícios do Karatê-dô. Funakoshi sempre dizia: “Para cada dia que você falta, perdem-se os três dias anteriores de treino”.

12. Não pense em vencer, pense em não perder;

Há uma grande diferença em querer ganhar a qualquer custo e não se permitir ser derrotado. Devemos ter cuidado com a ambição de vencer a qualquer custo. A primeira abordagem leva a destruição irrefletida, a segunda promove o bom senso e a ação prudente. Devemos praticar e nos esforçarmos bastante para não perder a confiança e assim, obtermos a grande paz interior o que nos liberta da ansiedade e das ambições.

13. Mude o comportamento de acordo com o seu adversário;

Os nossos adversários não são um só e nem sempre têm o mesmo comportamento. Por isso, devemos treinar várias técnicas e estratégias diferentes, bem como as formas de aplicação das mesmas técnicas. Quando estivermos tranquilos e com a mente livre conseguimos usar a imaginação e a criatividade para conseguimos usar as melhores técnicas e estratégias para enfrentarmos as situações difíceis e resolvermos os nossos problemas. Os karatecas devem agir naturalmente a um ataque adaptando-se aos seus oponentes, nunca forçando o resultado.

14. O sucesso na luta depende do uso do bom controle do Kyo e do Jitsu;

O melhor posicionamento permite a facilidade de enfrentar os obstáculos. Devemos aproveitar os momentos de Kyo, que são falhas momentâneas, decorrentes de processos mecânicos físicos ou psicológicos, como por exemplo, um escorregão ou uma desatenção, e transformá-los em gesto (ação). Devemos ter cuidado para não gerar este estado de Kyo e, se por um acaso viermos a tê-lo, termos cuidado para não expô-lo durante a luta. Porém, Mestre Sasaki evidencia que Kyo é necessário para sonhar, descansar e para revitalizar. 

15. Considere as mãos e os pés como espadas;

Também foi um dos ensinamentos do Mestre Asato para Funakoshi. Não é apenas o fato de transformar suas mãos e pés em armas mortais. É trabalhar com a consciência do praticante do terrível potencial que  tem sob seu domínio e sua respectiva responsabilidade.

16. Ao sair do portão de casa você irá enfrentar 10 mil inimigos;

É através da luta pela sobrevivência que o homem fortalece seu espírito. Não podemos ter a mentalidade fraca ou melancólica. Devemos acreditar em nossa capacidade e nos esforçar para enfrentar as adversidades. O resultado depende da qualidade do esforço, da coragem e da determinação. O descuido é um grande inimigo quando deixamos a zona de conforto e segurança para trás. Se não estivermos no máximo de nossa forma e atitude mental positiva, iremos atrair problemas. Portanto, o significado de nos afastarmos do portão da casa, estamos entrando no meio de muitos inimigos em potencial e devemos ficar mentalmente em alertas.

17. Kamae (posição de prontidão) é para iniciantes, os experientes adotam a postura shizentai (postura natural do corpo);

Quando nas primeiras fases de treinamento, é importante aprender as várias formas de kamae. Entretanto, se fixar num kamae irá inibir sua liberdade de execução de técnicas. Quando seu treino evoluir você não ficará preso no kamae, adotando uma postura mais natural (Shizentai), onde você pode mudar de posição e atacar livremente. Sua mente estará em kamae enquanto você estará fisicamente em Shizentai. 

18. Os katas devem ser realizados corretamente, em combate é outra questão;

Os katas foram uma forma criada pelos antigos mestres para perpetuar o ensinamento de técnicas de gerações para gerações passando de pessoa para pessoa. Foi assim que as técnicas do Karatê-dô ganharam o mundo. Através da sua aplicação, os katas contêm as técnicas necessárias para defender e contra golpear. Percebam que o kata sempre começa com uma defesa, mantendo vivo o espírito do Karatê-dô, que é a não agressão. Já combate real, não se deve ser limitado pelas técnicas do kata. Ao contrário, o praticante deve transcender o kata, movimentando-se livremente de acordo com os pontos fortes e fracos do seu adversário e de suas limitações.  

19. Nunca se esqueça de seus pontos fortes e fracos, das limitações do seu corpo e da qualidade relativa de suas técnicas;

Mais uma vez o reforço do ensinamento: conhece-te a ti mesmo. Se você se conhecer a vitória está a meio caminho andado. Deve-se ter em mente a sua qualidade das técnicas como a colocação ou tirada de força dos golpes, a extensão e a contração do corpo nos movimentos, a aplicação da técnica de forma lenta ou rápida, entre outras.

20. Dê polimento contínuo a sua mente;

Polir neste caso significa pesquisar as naturezas das coisas. Esse empenho envolve a pessoa como um todo e é um esforço concentrado para remover todos os obstáculos mentais e físicos que se encontram em seu caminho. Este princípio compreende em si mesmo todos os princípios anteriores. Seja do ponto de vista espiritual ou técnico, o praticante deve manter-se constantemente atento, diligente e capaz. (BARTOLO, 2009, p. 94-103).

 

Segundo o autor (Bartolo, 2009), o “Lema do Karatê” e os “Vinte Princípios do Mestre Funakoshi”, nos apresentam todos os ensinamentos filosóficos e éticos do Karatê-dô, sendo o referencial na aprendizagem desta nobre arte marcial em todo o mundo.

 

1.8 Os elementos técnicos do Karatê

Segundo Breda et al. (2010), no início do século XX, Jigoro Kano, fundador do judô, inaugurou também um modelo de se ensinar lutas no Japão, determinando como uma aula deve iniciar, em qual sequência e qual forma devem ser ensinados os golpes, e como deve ser finalizada. Ele instituiu, ainda, o sistema de faixa por cores, sendo que o aluno inicia na faixa branca e vai trocando de faixa conforme a sua evolução na modalidade, até chegar à preta. Para mudar de faixa, há um protocolo, um conjunto de pré-requisitos baseados na técnica da modalidade e na conduta moral que o aluno deve cumprir e demonstrar em uma avaliação denominada “Exame”. Outras modalidades seguiram o modelo de Kano, inovador ao sistematizar, inclusive por meio de publicações, um conteúdo que antes era transmitido oralmente.

Breda et al. (2010), relata que Funakoshi, sistematizador do karatê, conviveu com Jigoro Kano ao se instalar em Tóquio e propôs para sua modalidade uma estrutura e um esquema de aula semelhante ao do judô, ainda na década de 1920. Dessa forma, a modalidade poderia ser divulgada por todo o Japão e, posteriormente, por todo mundo, dando a todos os professores de karatê um método e uma sequência didática para o ensino da modalidade. Até hoje o modelo proposto por Funakoshi se faz presente. 

Nakayama (1977) afirma que as técnicas de bloqueio, soco, golpe e chute são tanto o principio quanto o propósito principal do Karatê-dô. Embora apenas alguns meses possam a ser suficientes para aprendê-las, o domínio completo pode não ser alcançado mesmo depois de toda vida de treino. O estudante tem que praticar regularmente, com o máximo de concentração e esforço na execução de cada movimento.

Nakayama (1977) afirma ainda que o karatê distingue-se do boxe e de outras artes de luta em suas técnicas defensivas. Há muitas técnicas para bloqueio de chutes e essas fazem uso das pernas e dos pés, bem como das mãos e braços. O karatê é único nesse sentido.

Breda et al. (2010) relata ainda que as técnicas de ataque do karatê, baseadas em golpe com as mãos – como socos e golpes com mão aberta -  e com as pernas – chutes e joelhadas -, assim como as técnicas de defesa, quais também são utilizadas mãos e pernas na expectativa de bloquear ou desviar golpes adversários, são praticadas por meio de três método de ensino: - Kihon, Kata e Kumitê.

Segundo Breda et al. (2010), o Kihon, conhecido também como treinamento básico, no qual todos os fundamentos técnicos do karatê são transmitidos e repetidos. Na tradição milenar das artes marciais que precederam o karatê, o kihon era usado para, além de desenvolver a técnica do golpe perfeito, desenvolver o espírito guerreiro e o corpo forte, pois cada golpe é feito de forma isolada e repetida inúmeras vezes, sempre acompanhado kiai, que é grito que exterioriza a energia do lutador. Assim, o sensei (professor) fala o nome de um golpe  e, a cada contagem sua, os alunos o executam acompanhado de um kiai.

Segundo Nakayama (1979, 1981, 1987), os katas do Karatê-dô são combinações lógicas de bloqueio, soco, golpe e chute em certas sequências determinadas. Cerca de vinte e seis katas Shotokan ou “exercícios formais” são praticados atualmente, alguns dos quais foram passados de geração em geração, enquanto outros foram desenvolvidos recentemente.

Segundo Breda et al. (2010), o kata, constitui-se em uma forma, ou seja, um conjunto de golpes básicos que simulam uma luta contra vários adversários imaginários ao mesmo tempo. É a primeira estrutura sistematizada para o ensino do karatê. Existem diversos katas pré-estabelecidos que devem ser ensinados em uma sequência também já determinada, e, para cada estágio do treinamento (faixa), um ou mais katas devem ser aprendidos, a fim de que o praticante receba a faixa seguinte.

Segundo Nakayama (1979, 1981, 1987), o treino nos kata tanto é espiritual quanto físico. Na execução dos katas, o karateca deve exibir coragem e confiança, mas também humildade, gentileza e um senso de decoro, integrando assim o corpo e a mente numa disciplina singular. Como Gichin Funakoshi lembrava frequentemente a seus discípulos. “Sem a cortesia, o Karatê-dô perde o seu espírito”. Uma expressão dessa cortesia é a inclinação de cabeça feita no início e término de cada kata.

Nakayama (1979, 1981, 1987) afirma que os katas podem ser divididos em duas amplas categorias. Numa, encontram-se os apropriados ao desenvolvimento físico, ao fortalecimento dos ossos e músculos. Apesar de aparentemente simples, eles requerem tranquilidade para serem executados e exibem força e dignidade quando executados corretamente. Na outra categoria encontram-se os katas apropriados para o desenvolvimento de reflexos rápidos e da capacidade para mover-se rapidamente. Os movimentos relâmpagos desses katas surgem o voo rápido da andorinha. Todos os katas requerem e cultivam o ritmo e a coordenação.

Nakayama (1979) relata que todos os cinco katas Heians e os três kata Tekkis são katas básicos. Na execução dos katas Heians, deve-se dominar os princípios e habilidades indispensáveis no karatê. Nos katas Tekkis, a pessoa deve adquirir a dignidade e força das técnicas do karatê mas, com isso, ela deve chegar a dominar a dinâmica, a força propulsora que vem com a prática, com o propósito de fortalecer os quadris e as posturas.

Segundo Nakayama (1979), os katas Bassai e Kanku representam os katas Shotokan: O Bassai ensina a serenidade e a agilidade, a força e a mudança, técnicas rápidas e lentas, a dinâmica da força, a transformação da desvantagem em vantagem e a mudança de bloqueios. Com o Kanku aprendem-se técnicas rápidas e lentas, a dinâmica da força, a flexibilidade do corpo, rotação, salto e queda. É importante aprendê-los depois de dominar os fundamentos por meio dos katas Heians e Tekkis.

Nakayama (1979, 1981, 1987) aponta que os katas livres são os seguintes: Bassai, Kanku, Jitte, Hangetsu, Enpi, Gankaku, Jion, Tekki, Nijushiho, Gojushiho, Unsu, Sochin, Meiyo, Chintei, Wankan e outros.

Nakayama (1981, 1987) aponta ainda que os katas Heians e Tekkis e os katas livres Bassai a Jion, são os katas essenciais do Shotokan. Em 1948, discípulos das universidades de Keio, Waseda e Takushoku tiveram um encontro com o Mestre Gichin Funakoshi na Universidade de Waseda. O objetivo desse encontro era chegar a uma visão comum que unificasse os katas, pois estes, no período subsequente à guerra, estiveram sujeitos a variadas interpretações individuais e subjetivas. Os katas aqui apresentados seguem os critérios estabelecidos naquela ocasião.

Segundo Breda et al. (2010), o Kumitê, significa combate de mãos, mas que na prática, envolve todo o corpo no combate com o adversário real. É quando o karateca aperfeiçoa as técnicas adquiridas com os treinamentos do kihon e kata, em parceria com um companheiro de treino ou em competições, devendo ser mantido o princípio de formação do homem por meio da prática da luta, como ensina Oyama: “O karateca não se aperfeiçoa para lutar, luta para se aperfeiçoar”.    

Segundo Nakayama (1979). Nunca se enfatizará suficientemente a importância do kata para o kumitê. Se as técnicas do kata forem executadas sem naturalidade ou de maneira forçada, a postura será desajeitada. E se essas técnicas forem aplicadas de modo confuso, o kumitê não se aperfeiçoará. Em outras palavras, o aperfeiçoamento no kumitê depende diretamente do progresso no kata; as duas andam juntas a mão e a luva. Durante a prática do kumitê, deve-se ter isso em mente.

Nakayama (1978, 1979) relata que há três tipos de kumitê: O Kumitê Básico – nessa forma de kumitê, a mais elementar, os oponentes, depois de combinarem o alvo, determinam a distância um do outro. Em seguida, praticam o ataque e a defesa, altamente. Isso pode ser feito por meio de um único ataque e bloqueio (ippon kumitê) ou de uma série de cinco ataques (gohon kumitê) ou três  ataques (sambon kumitê). O Jiyu Ippon Kumitê – neste método se resume no seguinte, os dois parceiros escolhem um ataque. Depois anunciar o seu alvo, o atacante arremete decididamente. Para se defender, o oponente bloqueia, usando as técnicas que preferir, e contra-ataca imediatamente. Esse é um método de treinamento cujo objetivo é pôr realmente em prática as técnicas de ataque e defesa, e Jiyu Kumitê – este consiste em luta real onde os parceiros não fazem nenhuma combinação anterior. Várias técnicas e alvos são proibidos. Respeitando estes, o Jiyu kumiê é uma forma livre de luta.

Segundo Nakayama (1978, 1979), no treinamento, o estudante pratica cada tipo de kumitê de acordo com seu próprio nível de aperfeiçoamento. Faz-se necessário, portanto, entender perfeitamente as diferentes características dos diversos tipos de kumitê e ter os objetivos de cada um deles bem presentes no momento da prática.

1.9 Introdução do Karatê nas Escolas

A prática do karatê como atividade física foi introduzida nas escolas japonesa no início do século XX. Após um longo período de proibição e clandestinidade, o karatê torna-se oficial e reconhecido no Japão e posteriormente no mundo.

 

Pelo que me lembro, foi no primeiro ou segundo ano deste século que Shintaro Ogawa visitou nossa escola; Ogawa era então inspetor escolar da prefeitura de Kagoshima. Entre as várias apresentações que haviam sido preparadas em sua homenagem estava uma demonstração de karatê. Ele ficou muito impressionado com essa exibição, mas foi somente mais tarde que fiquei sabendo que depois de seu retorno de Okinawa, apresentou um relatório detalhado ao Ministério da Educação, elogiando entusiasticamente as virtudes da arte. O resultado do relatório de Ogawa foi que o karatê passou a fazer parte do currículo da Escola Secundária da Prefeitura de Daiichi e da Escola Normal para Homens. A arte marcial que eu estudara às escondidas quando era pobre havia finalmente saído da clandestinidade e, mais do que isso, obtivera a aprovação do Ministério da Educação. Não soube como expressar minha profunda gratidão a Ogawa, mas tomei a decisão de dedicar todo o tempo e esforço possíveis à difusão da arte (FUNAKOSHI, 1975, p.53).

 

Segundo Bartolo (2009) em 1908, “Os 10 Artigos do Karatê (Tode)”, preparado pelo mestre Anko Itosu foram submetido à Seção de Assuntos Educacionais da Prefeitura de Okinawa. Após isso, o karatê foi introduzido no currículo das escolas como atividade física, adquirindo grande acessibilidade. Em contraste com os princípios previamente secretos do Isshi-soden (a completa transmissão de técnicas de estilo somente para os seus pares). Vejamos a tradução desta carta e observem a preocupação de Sensei Itosu com seus ensinamentos.  

Carta de Anko Itosu para o Departamento de Educação da Prefeitura de Okinawa.

“O Tode não descende do Budismo e Confucionismo. No passado recente o Shorin-ryu e o Shorei-ryu foram introduzidos vindos da China. Ambos têm pontos fortes, assim, antes que haja muitas mais alterações, eu gostaria de escrevê-los:

1.O principal objetivo do Tode é a melhoria da saúde. De forma a defender os seus pais ou seu mestre é próprio atacar um inimigo independentemente da sua própria vida. Nunca atacar um adversário sozinho. Se encontrar um vilão ou rufia não se deverá usar o Tode, mas apenas desviar-se e sair do combate.

2.     O objetivo do Tode é tornar o corpo duro como pedra e ferro; as mãos e os pés devem ser usados como as pontas de uma seta; os corações devem ser fortes e corajosos. Se as crianças praticassem Tode desde a escola primária elas ficariam bem preparadas para a vida militar. Quando Wellington e Napoleão se encontraram, chegaram a um acordo no ponto em que a “a vitória de amanhã vem do recreio da escola de hoje”.

3.     Não se pode aprender Tode rapidamente. Como um touro que se move lentamente, mas que acabará por percorrer mil milhas, se treinar seriamente todos os dias, em três ou quatro anos irá se perceber o que realmente é o Tode. Mesmo a forma dos ossos irá se alterar. Aqueles que estudarem da seguinte forma descobrirão a essência do Tode.

4.     No Tode as mãos e os pés são bastante importantes, devendo assim ser constantemente treinados numa Makiwara. Ao fazer isto deverá baixar os seus ombros, abrir os seus pulmões, controlar a sua força, agarrar o chão com os pés e baixar a sua energia intrínseca para o seu abdômen inferior. Partindo com braço uma ou duas centenas de vezes.

5.     Quando se pratica as posições do Tode certifique-se de que as suas costas estão direitas, abaixe os seus ombros, mobilize a sua força e ponha-a nas suas pernas, mantenha-se firme e coloque a sua energia intrínseca no abdômen inferior, mantendo a porção superior e inferior deste, firmemente juntas.

6.     As técnicas externas do Tode devem ser praticadas uma por uma, muitas vezes. Devido a estas técnicas serem transmitidas de uma forma oral, dê-se ao trabalho de aprender as explicações e decidir quando e em que contexto é possível usá-las. Entre, contrarie, liberte; esta é a regra do torite.

7.     Tem de decidir se o Tode é para cultivar um corpo saudável ou para melhorar a sua missão.

8.     Quando está a praticar deverá imaginar que está num campo de batalha. Quando bloquear e atacar, os seus olhos devem transmitir fúria, deve baixar os ombros e endurecer o corpo. Agora bloqueie o golpe do inimigo e ataque! Pratique sempre com este espírito para que quando, no verdadeiro campo de batalha, você esteja, naturalmente, preparado.

9.     Não exagere na prática dos exercícios porque a energia intrínseca irá subir a sua face e tornará os seus olhos vermelhos e  isso fará mal ao seu corpo. Tenha cuidado.

10. No passado muitos dos que dominaram o Tode viveram até uma idade bastante avançada. Isso é porque o Tode ajuda no desenvolvimento dos ossos e tendões, ajuda os órgãos digestivos e é bom para a circulação sanguínea. Desta forma, daqui em diante o Tode deveria tornar-se a base de todas as aulas de desporto desde a escola primária. Se isso for posto em prática haverá, eu penso muitos homens que conseguirão derrotar dez agressores.

A razão para ter afirmado tudo isso é que, em minha opinião, todos os estudantes da Escola de Treino de Professores de Prefeitura de Okinawa deveriam praticar Tode para quando se formassem pudessem ensinar às crianças nas escolas exatamente como lhes disse.

Assim, dentro de dez anos o Tode estaria espalhado por toda Okinawa e restante Japão. Isto será grande valor a nossa sociedade militarista. Espero  que estudem atentamente as palavras que aqui escrevi.” Anko Itosu. (BARTOLO, 2009, p.119-121).

 

Segundo Funakoshi (1975), depois de sua inclusão nos currículos escolares, o karatê começou a exercer inevitável atração sobre todos os tipos de pessoas. Não apenas as escolas secundárias, mas também organizações de jovens e também escolas primárias adotaram esta arte sutil de autodefesa como um de seus cursos de educação física.

 

1.10 A pedagogia das lutas no contexto escolar

Tradicionalmente, as lutas envolvem valores e modos de comportamento relacionados ao respeito, à dedicação, à confiança, à autonomia, visando ao desenvolvimento integral do ser humano. Temia-se pela extinção destes com a formação esportiva das lutas, o que pode não ocorrer, desde que o esporte e, por extensão, as lutas esportivas sejam compreendidos como fenômeno sociocultural repleto de possibilidades educacionais, como destaca Breda et al. (2010).

Breda et al. (2010), relata que a tradição, a história, os ensinamentos do fundador são muitos importantes para que as origens marciais de determinadas lutas jamais sejam esquecidas, porém, vivemos em um país totalmente diferente de onde nasceram as artes marciais e a tradição oriental pode não ser tão bem aceita pelo nosso povo, ainda mais ao se tratar da organização de procedimentos pedagógicos para faixa etária, como a infância, que não está familiarizada com uma cultura tão diferente.

Segundo Breda et al. (2010), com relação às lutas, crianças e pais relatam um fator especial que instiga a procura pela sua prática na infância: os desenhos animados e outros programas com personagens que apresentam elementos da luta em sua composição. No caso do karatê, é comum a criança ter visto na TV um super-herói capaz de desferir golpes em dez bandidos ao mesmo tempo e dar saltos espetaculares, ou um personagem animado derrotar monstros enormes por meio de suas habilidades para luta corporal e, baseada nisso, procurar a modalidade. O professor deve trabalhar e incentivar essa imaginação, pois, nesse momento a criança está criando o seu modo de enxergar as coisas. Claro que não deve fazer da aula de karatê uma sala de guerra, mas canalizar essa energia e criatividade e dar à criança uma aula em que ela possa ter conhecimentos para saber aproveitar depois. Dessa forma, não se trata de permitir agressões tais quais aquelas observadas em programas de televisão, mas, com base no interesse da criança pela aula de luta, ensiná-la a conviver com a agressividade, de forma a não prejudicar-se ou prejudicar os colegas.

Brasil (1998) relata que as lutas são disputas em que o(s) oponente(s) deve(m) ser subjugado(s), mediante técnicas e estratégias de desequilíbrio, contusão, imobilização ou exclusão de um determinado espaço na combinação de ações de ataque e defesa. Caracterizam-se por uma regulamentação específica, a fim de punir atitudes de violência e de deslealdade. Podem ser citados como exemplo de lutas desde as brincadeiras de cabo-de-guerra e braço-de-ferro até as práticas mais complexas da capoeira, do judô e do karatê.

Brasil (1998) relata ainda que as habilidades motoras deverão ser aprendidas durante toda a escolaridade, do ponto de vista prático, e deverão sempre estar contextualizadas nos conteúdos. Do ponto de vista teórico, podem ser observadas e apreciadas, principalmente dentro dos esportes, jogos, lutas e danças.

Segundo Breda et al.(2010), se um professor de karatê chegar ao dojô (local de aula) com um rolo de jornal em mãos e mostrar aos alunos como se faz uma espada e ensinar a essas crianças alguns pontos da esgrima e do kendo, com certeza não estará ensinando karatê. Se esse mesmo professor colocar colchonetes no chão e ensiná-los a rolar e a cair, não estará ensinando karatê e, sim, princípios do judô e jiu-jitsu. Em contrapartida, esse professor estará dando a seus alunos meios diversos de conhecer outras modalidades de luta ou esportes e proporcionando a essa criança o mínimo de que precisa para poder escolher uma prática corporal: conhecer várias.

Breda et al. (2010), relata que o conteúdo das lutas na escola está também envolto em uma realidade que pode ser melhorada: pela ausência de uma disciplina que abordasse o tema no currículo da faculdade de Educação Física ou por esta ter sido insuficiente para desmistificar a crença de que é necessário ser “mestre” ou “faixa preta” para propiciar vivências que permitam o conhecimento das lutas, este conteúdo não é efetivamente tratado nas escolas, ficando restrito às crianças que têm acesso a uma academia ou clube.

Breda et al. (2010), relata ainda que ao conhecer profundamente as técnicas, táticas, os históricos e valores que as lutas carregam é uma tarefa árdua e demorada. Talvez essa seja uma das razões da pequena inserção do conteúdo luta nos currículos de Educação Física.

Os conhecimentos básicos e específicos do karatê são importantes e essenciais, uma vez que diferenciam essa modalidade de outras. Mais que isso proporciona aos alunos contato com um conhecimento construído em outro país, em outra cultura. Entretanto, atentamos, bastante para o contexto em que nossos alunos brasileiros estão inseridos, em uma cultura diferente do país de origem do karatê. Em nosso país, onde a infância é bastante respeitada como um momento especial ao qual está vinculada a oportunidade de brincar faz-se necessário refletir sobre os métodos de ensino-vivência-aprendizagem do karatê para crianças. Destacamos, ainda, que a Educação Física e a Pedagogia do Esporte vêm contribuindo de forma intensa com estudos sobre métodos de ensino de esportes para crianças, sendo momento de trazermos para o karatê esse conjunto de descobertas.

 

1.11 A educação física no processo de alfabetização

Segundo Tisi (2007), a Educação Física deve atuar como qualquer outra disciplina da escola e não desintegrada dela, sem se tornar uma disciplina auxiliar de outras. A atividade da Educação Física precisa garantir que, de fato, as ações físicas e as noções lógicas matemáticas que a criança usará nas atividades escolares e fora da escola possam se estruturar adequadamente.

Tisi (2007) afirma que como todas as outras disciplinas educativas, a Educação Física procura, ao mesmo tempo, o desabrochar das aptidões do indivíduo e a aquisição das capacidades extraídas ao patrimônio humano. Para tanto, ela associa uma pedagogia de desenvolvimento, que respeita aquilo que a criança traz em si, a uma pedagogia de formação, preocupada em proporcionar-lhe mais poderes sobre si próprios e sobre o mundo.

Tisi (2007) afirma ainda que, a Educação Física deve ser considerada como uma educação de base na escola primária. Ela condiciona todos os aprendizados pré-escolares e escolares; leva a criança a tomar consciência de seu corpo, da lateralidade, a situar-se no espaço, a dominar o tempo, adquirir habilmente a coordenação de seus gestos e movimentos, ao mesmo tempo em que desenvolve a inteligência. Deve ser praticada desde a mais tenra idade; conduzida com perseverança, permite prevenir inadaptações, difíceis de corrigir quando já estruturadas.

Segundo Tisi (2007), a educação psicomotora na idade escolar deve ser antes de tudo, uma experiência ativa de confrontação com o meio. Ajuda educativa, proveniente dos pais e do meio escolar, tem a finalidade não de ensinar à criança comportamentos motores, mas sim de permitir-lhe, mediante o jogo, exercer sua função de ajustamento, individualmente ou com outras crianças. No estágio escolar, a prioridade constitui a atividade motora lúdica, fonte de prazer, permitindo à criança prosseguir na organização de sua “imagem do corpo” ao nível do vivido servindo de ponto de partida na sua organização prática em relação ao desenvolvimento das atitudes de análise perceptiva. É, portanto, na perspectiva de uma verdadeira preparação para vida que deve inscrever-se o papel da escola, e os métodos pedagógicos renovados devem, por conseguinte, tender a ajudar a criança a desenvolver-se da melhor maneira possível, a tirar o melhor partido de todos os seus recursos, preparando-a para vida social.

Tisi (2007) relata que, dominar os gestos da escrita seria o equilíbrio entre as forças musculares, flexibilidade e agilidade de cada articulação do membro superior. Portanto, é indispensável fixar as bases motoras da escrita antes de ensinar ha criança a dominar seu lápis.

 Tisi (2007) relata ainda que a escrita seja antes de tudo, um aprendizado motor. A aquisição desta práxis específica, particularmente complexa, exige que se eduque a função de ajustamento. Antes, a criança aprende a ler, isto é, antes de sua entrada no curso preparatório, o trabalho psicomotor terá como objetivo proporcionar-lhe uma motricidade espontânea, coordenada e rítmica, que será o mesmo aval para evitar os problemas de disgrafia.

Segundo Tisi (2007), um dos aspectos que o trabalho psicomotor assumirá durante o período escolar será, precisamente, o de fazer com que a criança passe da etapa perceptiva à fase da representação mental de um espaço orientado, tanto no espaço como no tempo. Para isto, as imagens, a principio reprodutoras e depois antecipadoras, serão o prolongamento das ações anteriormente vividas, analisadas depois do plano perceptivo, simbolizado, enfim, no modo verbal e no modo gráfico. As ações coletivas que se desenvolvem em áreas amplas favorecem, evidentemente, a colocação de problemas concretos de espaço, cujas soluções  anteriormente vividas, transpostas depois para o plano simbólico, servirão mais tarde de apoio à entrada na fase das operações formais.

 

1.12 Atividades lúdicas nas aulas de karatê

Breda et al.  (2010), relata que as aulas de karatê para crianças até 10 anos devem ter uma motivação diferenciada, com temas diversos, o que se faz possível por meio de atividades gerais. Nas atividades gerais, a criança irá brincar em toda e qualquer ação proposta, pois, brincar é o que as crianças pequenas fazem quando não estão comendo, dormindo ou obedecendo a ordem dos adultos. As brincadeiras ocupam a maior parte de suas horas despertas e isso pode, literalmente, ser considerado como o equivalente ao trabalho para criança. Logo, as brincadeiras são o modo básico pelo qual elas tomam consciência de seus corpos e de suas capacidades motoras. Brincar também serve como importante facilitador do crescimento cognitivo e afetivo da criança pequena, bem como importante meio de desenvolver tanto habilidades motoras refinadas quanto habilidades motoras rudimentares.

Breda et al.  (2010), relata ainda que as crianças devem ter uma infinidade de conhecimentos, uma vez que o início da infância representa um período ideal para que a criança desenvolva-se e refine grande números de tarefas motoras, desde os movimentos fundamentais do início da infância até as habilidades esportivas do período intermediário.

Breda et al.  (2010), propõe um conjunto de atividades lúdicas para a modalidade karatê. Além de brincadeiras com elementos formais do karatê, estão englobadas outras modalidades de lutas, possibilitando o conhecimento de outras lutas da mesma origem do karatê: o Japão. Como os exemplos seguintes:

Breda et al. (2010) relata que “Pega-pega karatê”, como em outros pega-pega, a brincadeira se inicia com um pegador pré-determinado, do qual os demais alunos fogem, mas aqui o aluno que for pego terá uma chance de não se transformar em pegador: falar um nome de golpe em japonês ou algo que tenha ligação com as lutas. Se ele não conseguir, passa a ser o pegador; caso contrário, a brincadeira segue com o mesmo pegador.

Segundo Breda et al. (2010), “morto-vivo karateca”: é uma opção de estimular o contato com os idiomas utilizados em  uma aula de lutas orientais, neste caso, a japonesa, dando os estímulos sonoros em japonês. Para ficar de pé, utilizamos a palavra hajme (que significa “pronto”, “começar”) e para se sentar ou deitar, a palavra yame (“parar”).

Segundo Breda et al. (2010), bexigas, é um material que nos dá uma quantidade incrível de possibilidades de novas atividades. De modo possibilitando a vivência dos golpes do karatê em um objeto leve e macio. Após encher as bexigas, os alunos desenvolverão as seguintes tarefas: Manter as bexigas no ar, tocando nelas com as mãos, como preferir; Manter as bexigas no ar executando socos variados; Manter a bexiga no ar com joelhada; Manter a bexiga no ar tocando-a com os pés e as pernas; Manter a bexiga no ar por meio dos chutes do karatê; Em duplas, manter duas bexigas no ar por meio de golpes do karatê; Todo o grupo junto mantém todas as bexigas no ar por meio dos golpes do karatê; Em duplas, manter a bexiga no ar e tentar derrubar um a do outro.

Breda et al. (2010) relata que nesta brincadeira, novamente, o objetivo está em facilitar o contato com o idioma japonês. Os alunos estarão dispostos aleatoriamente à frente do professor, que falará nomes de partes do corpo em japonês e, imediatamente, os alunos deverão apontar em seu corpo qual foi a parte falada. Para crianças em idade pré-escolar, a atividade ajuda também na descoberta do próprio corpo.

Breda et al. (2010), aponta que, na brincadeira “Estátua karateca”, os alunos deverão fazer movimentos e golpes do karatê. Ao sinal do professor, todos param como estátuas e este momento pode ser aproveitado para corrigir posturas e execução dos golpes. Também pode ser feito ao som de música.

Segundo Breda et al. (2010), “Futebol carateca”: ao jogar futebol em espaço adaptado no Dojô ou na quadra da escola, ao sofrer um gol, o time de alunos terá uma tempo determinado para que cada jogador fale um nome de golpe em japonês ou algo que tenha ligação com o meio das lutas; ao contrário, o gol do adversário valerá dois pontos. Pode ser utilizada a mesma estratégia com outros jogos esportivos coletivos.

Breda et al. (2010), relata que a “Queimada karateca”, utiliza-se da mesma estrutura descrita na queimada, mas não existirão pontos “frios”, ou que não podem ser queimados. Entretanto, sempre que um aluno desviar a bola com um golpe do karatê, ele não estará queimado. Com alunos mais avançados, além de aplicar o golpe na bola, pode-se pedir que ele fale o nome do golpe em português ou japonês, caso contrário, estará queimado.

Segundo Breda et al. (2010), “Samurais versus ninjas”: brincadeira similar ao policia e ladrão, muito praticada em diversas regiões do país. Os alunos serão divididos em dois grupos: um dos ninjas e outro dos samurais: será estabelecido um espaço no Dojô ou quadra que será a prisão. Os ninjas irão se espalhar pelo espaço e, ao sinal do professor, os samurais tentarão “capturá-los” e trazê-los para a prisão; entretanto, um ninja que estiver livre pode entrar na prisão e, se conseguir sair de lá sem ser pego e de mãos dadas com outro ninja, libertará o colega. O jogo termina quando todos os ninjas forem presos. Sugere-se também estabelecer um tempo e, ao final desse período, conta-se o número de ninjas presos e soltos: se a maioria estiver preso, vitória dos samurais, caso contrário, vitória dos ninjas. Sugere-se, ainda, que sejam feitas duas rodadas do jogo, invertendo-se os papéis de ninja e samurai.

Segundo Breda et al. (2010), “Defensores de Okinawa”: divide-se a turma em dois grupos, um dos moradores de Okinawa e outro dos invasores. Será determinado um espaço do Dojô que representará a ilha japonesa de Okinawa, que é o berço do karatê. Os moradores deverão elaborar estratégias para defender a ilha, e os invasores, para atacá-la e invadi-la. Quando a ilha estiver tomada por metade dos invasores, então serão vencedores.

Segundo Breda et al. (2010), “Luta de rabos”: postados frente a frente em duplas, as crianças devem pegar o jornal ou pano que está na cintura do outro. Isso deverá ser feito em posição de luta, ou seja, pernas ligeiramente afastadas, uma à frente da outra, e braços protegendo o rosto. Pode-se realizar com o material atrás do corpo, como um “rabo”, dificultando a tarefa e exigindo maior trabalho de pernas para conseguir retirar o “rabo” do colega.

Segundo Breda et al. (2010), “Luta de cobra”: em duplas, frente a frente e em posição de flexão de braço (em seis apoios, com os joelhos no chão), um deve tentar tirar o equilíbrio do outro, puxando os braços do colega e tomando o cuidado para não cair; o aluno que tocar o abdômen no chão perde.

Segundo Breda et al. (2010), “Luta de bolas”: alunos dispostos em duplas, em um espaço pequeno delimitado, sentado um de costas para o outro e com uma bola entre eles. Esta luta deve ser feita preferencialmente no tatame ou em colchões, e as duplas não podem sair do espaço delimitado. Ao sinal do professor, os alunos irão disputar a bola: aquele que a pegar primeiro deverá mantê-la em seu poder por dez segundos, enquanto o outro tenta pegá-la; se o colega conquistar a bola, é ele quem tentará manter a posse dela. Vence a luta o aluno que mantiver a bola em sua posse por dez segundos.

Segundo Breda et al. (2010), “Luta de anão”: dois a dois, de cócoras, um tenta fazer que o outro encoste os joelhos, as mãos ou nádegas no chão. Esta atividade é interessante para desenvolver o equilíbrio e os conceitos relacionados à aplicação de força, ao empurrar e ao puxar, e de utilização da força aplicada por um aluno no seu adversário a seu favor, nas ações de desviar.

Segundo Breda et al. (2010), “Luta pelo arco”: alunos dispostos em duplas, em pé, com um arco entre eles. Nessa estrutura, serão desenvolvidas as seguintes atividades: - Um aluno dentro e outro fora do arco, frente a frente, com mãos encostadas, estando os braços estendidos à frente do corpo, na altura do ombro. O aluno que estiver fora do arco tentará tirar o colega de lá e tomar o seu lugar. Os dois alunos fora do arco, frente a frente, um com as mãos no ombro do outro. Vence quem conseguir entrar no arco com os dois pés e assim permanecer por cinco segundos. Os dois alunos dentro do arco, frente a frente, um com as mãos na cintura do outro. Vence aquele que tirar os dois pés do colega do arco e assim mantê-lo por cinco segundos.

Breda et al. (2010), relata que todos  os conhecimentos transmitidos para as crianças nas aulas de lutas, com base na vivência de diferentes conteúdos por meio de diferentes estratégias, são processados pela criança de forma única, de maneira a torná-la capaz de constituir habilidades especiais, ferramentas com as quais poderá atender aos desafios de sua formação intelectual e motora na execução consciente dos movimentos ao brincar, ao praticar outros esportes, ao lutar; poderá responder às nuances do crescimento exigido para o desenvolvimento social, afetivo, moral e estético. Com isso, as competências vão se ampliando, sendo o aluno capaz de entender e ler a luta, compreender o esporte por meio das lutas e, o que mais importa ser criança ao lutar, para que os aprendizados necessários se deem no momento adequado.